a presença estética da mulher
e a negação da amizade
Historicamente, nascer mulher significou habitar, desde o primeiro instante, um espaço predeterminado e vigiado sob a guarda dos homens. A presença social feminina não emerge de uma espontaneidade própria do sexo, mas da determinação de papéis de gênero, que condicionam sua existência social sob essa tutela - ao preço, porém, de sua subjetividade cindida.
Desde a tenra idade, a mulher é educada a se examinar, voltando o olhar a si de modo quase clínico. Torna-se, assim, intérprete e espetáculo de si mesma. Os gestos, expressões, roupas, gostos, opiniões - na verdade, tudo o que ela faz é submetido a avaliação, pois o que aparenta aos outros e, em última instância, ao homem, determina aquilo que é ou não ”permissível” em relação a ela.
O olhar masculino precede a palavra. Antes de qualquer interlocução, a mulher é medida, decifrada, enquadrada. A maneira como se oferece à visão alheia condiciona o modo como será abordada. Isso é determinante não só para as relações entre homens e mulheres, como também para a relação das mulheres consigo mesmas. O examinador que há na mulher é masculino - o examinado, feminino. Assim, a mulher se transforma em objeto.
Essa estrutura não pertence apenas ao passado. Ela sobrevive, atualizada, nas formas contemporâneas de sociabilidade, e a máxima difundida de que “mulheres não podem ter homens como amigos” é sintoma dessa objetificação persistente. Parte-se do pressuposto de que seu corpo e sua atenção nunca são neutros, e a existência feminina diante do homem carrega, inevitavelmente, uma promessa erótica.
Mesmo na era do “empoderamento feminino”, a mulher não é reconhecida como sujeito relacional autônomo. Ela pode trabalhar, falar, expor-se, desde que permaneça limitada ao olhar que a observa. A suposta liberdade contemporânea não rompe com a estrutura que a transforma em objeto; apenas a torna responsável por sua objetificação. Se um limite é ultrapassado, recai sobre ela a pergunta silenciosa: como você se colocou diante disso?
A amizade, nesse contexto, é contaminada desde o início por uma assimetria: o homem é sujeito que pode desejar ou não; a mulher é objeto cuja desejabilidade é sempre pressuposta. Não raro, sente-se compelida a provar que “não há segundas intenções”, como se a própria ideia de amizade precisasse ser justificada quando envolve um homem. Trata-se de uma forma sutil, porém eficaz, de posse; mesmo quando circula livremente, a mulher continua presa a um papel que antecede qualquer encontro.
No plano simbólico, negar a possibilidade da amizade entre homens e mulheres é negar à mulher a condição de sujeito pleno da vida social. É afirmar que ela não pode compartilhar ideias, afetos e experiências sem que seu corpo seja o elemento central da relação. Reconhecer a possibilidade da amizade entre homem e mulher não é um gesto ingênuo, mas profundamente político: significa afirmar que a mulher pode existir diante de outrem sem ser, antes de tudo, objeto; e que o vínculo humano pode, enfim, escapar da lógica da posse e vigilância.
Referência:
John Berger, Modos de ver, cap. 3


