Belchior já nos avisou sobre IA
e a paixão pós-moderna
Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria e Família pra quem já tem Frigidaire?Em 1988 Belchior lança Elogio da Loucura, um álbum que demorei bastante a me afeiçoar. Hoje, entretanto, considero-o uma de suas obras mais incisivas. É nele que o artista brilha em suas críticas à sociedade do consumo, aos revolucionários (ou a falta deles), com a lucidez que sempre lhe calhou.
À primeira vista, Balada de Madame Frigidaire pode soar apenas mais uma composição tipicamente masculina, marcada por certa estética tosca dos anos 80 (visão que pode até ser verdadeira). Porém, sob a aparência de uma balada romântica cafona, Belchior constrói uma alegoria extremamente atual sobre a nossa relação com a técnica.
Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revoluçãoO que Belchior percebe aqui é a transição de objetos técnicos - utensílios ou ferramentas das tecnologias modernas, passando a ocupar espaços antes fundamentais para a organização social, como a religião, família, política e até o amor.
Neste caso, é a geladeira. Ela não apenas serve a um propósito, mas seduz e reorganiza a vida do sujeito. Paralelamente, não fazemos o mesmo hoje, organizando nossa vida em torno de um celular, ou há pouco, de uma inteligência artificial?
Podendo-se considerar que a geladeira ou qualquer outro objeto técnico não substituiria em essência, deus, família ou amor, logo lhe respondo que nem ao menos precisa de tal, pois o que está de fato em jogo é o símbolo: a promessa de que a técnica seja suficiente; e a lógica cultural que Belchior antecipa é a própria percepção e as formas que a técnica assume.
Que brancor no abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascética!
Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocêsA geladeira deixa de ser um eletrodoméstico para assumir contornos quase religiosos. Ela possui uma aura, desperta devoção e desloca outros centros. Ontem era a televisão; hoje, talvez, seja o celular; amanhã, quem sabe…
Se, em meados dos anos 1980, o objeto revolucionário da classe média era a geladeira, em 2026 ele se revela como chatbot disponível 24h especialmente a você. Escreve por você, pensa por você, cria por você. Tão logo começamos a introduzir valores e características humanas a esses objetos tão próximos.
Não a toa nos deparamos tantas e tantas vezes com expressões do tipo “Chat GPT é racista?”, “Imagem de IA não tem alma.”, “IA tem consciência?”, etc…
Questões estas que revelam menos sobre as máquinas do que sobre nós. Continuamos atribuindo características humanas aos objetos técnicos, como fizemos com carros, livros e computadores. A diferença é que, desta vez, a ilusão é mais convincente.
Em suma, o que tais objetos fazem é enquadrar a sua realidade. Sim, como uma fotografia mesmo, limitando seu olhar por molduras determinadas (por outros). Eles nos acostumam a enxergar conhecimento, criatividade, ideias e relações como serviços sob demanda e, acima disso, há outro problema: quem controla esse enquadramento?
Toda moldura exclui algo.
Todo algoritmo privilegia determinados dados.
Toda tecnologia incorpora valores e interesses específicos.
É por isso que Balada da Madame Frigidaire jamais foi sobre a geladeira. Belchior escrevia sobre a nossa capacidade de transfigurar objetos em mediadores da realidade, sem ao menos perceber que essas tecnologias não são neutras, depositando promessas ao que já nos era abundante.
Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria e Família pra quem já tem Frigidaire?


