como aprender como um gênio
e outras falácias
Recorrentemente me deparo, aqui no Substack, com artigos intitulados como “aprenda tudo com facilidade” ou “como aprender como um gênio”; decerto também já se deparou com algo assim pela internet.
O que esses vendedores de produtividade não contam é que parte inerente do processo de aprendizagem decorre justamente da dificuldade. Para isso, puxo uma carta muito utilizada pelos próprios coaches de produtividade: o estado de flow.
Mihaly Csikszentmihalyi desenvolveu o conceito de flow para descrever momentos de total envolvimento em uma atividade. Nessas horas, a consciência parece se fundir com a ação e o foco torna-se intenso. O que torna o conceito interessante, porém, é que esse estado só surge quando há um desafio equivalente à sua habilidade.
Se o desafio for muito baixo, surge o tédio;
Se for alto demais, ansiedade.
O flow aparece justamente nessa zona intermédia, onde a tarefa exige o suficiente para nos mobilizar, mas não a ponto de paralisar.
Não entrarei no mérito do quão confiáveis são as pesquisas sobre o tema hoje. O conceito me interessa porque nos lembra de algo simples:
aprender exige!
Exige suportar a condição temporária de ignorante. Exige errar, não saber, pausar, insistir. Exige permanecer por um tempo nesse território desconfortável entre aquilo que dominamos e aquilo que ainda nos foge.
Você não aprende buscando como aprender fácil.
Contudo, estamos cercados por posts, livros, vídeos e discursos que prometem justamente o contrário, transformando o conhecimento em um produto e a identidade em mercadoria.
Não basta estudar filosofia: é preciso tornar-se “intelectual”.
Não basta aprender a desenhar: é preciso ser artista.
Assim, passamos menos tempo aprendendo e mais tempo consumindo símbolos associados a quem gostaríamos de ser. Continuamos buscando identidades, permanência, reconhecimento; continuamos nos transformando em dados comercializáveis para plataformas, marcas e algoritmos.
Ou você acha que é por acaso que o tal “intelectual” fuma cachimbo, usa suéter sobre a camisa social e óculos caramelo?
A questão é que o mercado vende estilos de vida com muito mais facilidade do que vende processos. É mais fácil consumir a imagem do filósofo do que enfrentar a dificuldade de sentar e estudar filosofia. É mais fácil comprar a identidade do artista do que lidar com os anos de prática necessários para aprender o básico.
Mas o aprendizado não acontece apesar da dificuldade, e sim através dela, nesse espaço de incômodo entre a competência e a ignorância. E quanto menos estivermos preocupados em construir uma identidade de pessoa inteligente, mais livres estaremos para, de fato, aprender.


