não existe planejamento de vida
Ando desconfiado dessa ideia de planejar a vida. Não de forma niilista, como se pensar o futuro fosse inútil, mas porque o futuro raramente aceita ser organizado com tanta antecedência. A gente calcula, insiste, quebra a cabeça para fazer as coisas acontecerem como imaginou; até que a realidade vem, sem escrúpulos, e atravessa qualquer expectativa.
Estamos constantemente cercados por discursos que transformam a existência em projeto: metas, produtividade, carreira, desenvolvimento pessoal... Como se bastasse organizar os próximos passos para neutralizar o próprio devir. E, sejamos sinceros, burocratas do tempo não faltam por aí hoje em dia. Infelizmente aos mestres do LinkedIn, o futuro é mais indisciplinado que isso.
Não quero dizer que devemos abandonar qualquer pensamento sobre o amanhã e simplesmente “deixar a vida levar”. O planejamento pode ser útil em alguns casos, mas o problema começa quando ele vira fetiche de controle, e um plano rígido transforma qualquer mudança em fracasso; um norte, por outro lado, permite desvio, pausa, imprevisibilidade. Nele, a mudança não é interrupção do percurso, é parte dele.
O mundo nos cobra tudo e, ao mesmo tempo, nos oferece soluções que prometem estabilidade. Mas sabemos bem que essa estabilidade raramente existe. Muitas vezes, são apenas ilusões para vender um mundo que te cobre um pouco menos que tudo.
Diante disso, talvez exista uma postura mais honesta: admitir que não sabemos exatamente o que estamos fazendo, mas ainda assim reconhecer aonde queremos chegar.
Engraçado que, enquanto escrevia, tocou na minha playlist a música “O Vento” do Los Hermanos:
O vento vai dizer
Lento o que virá
E se chover demais
A gente vai saber


