não sei escrever sobre cinema
e crítica de: a casa que jack construiu
Recentemente assisti A Casa que Jack Construiu, um filme que me atravessou, deixou incômodos morais e estéticos por dias. Tão logo pensei em escrever uma análise crítica sobre o filme que me atraiu tanto, pois mesmo que tenha sido lançado há anos e muitos comentários acerca dele já foram publicados, imagino que poderia acrescentar algo ao relacioná-lo com outros objetos de estudo que passaram pela minha vida. O problema disso é que eu não sei escrever sobre cinema, ou pelo menos é o que ando repetindo a mim durante o processo dessa escrita. Basta pular um pouco da minha suposta área de domínio que facilmente me encontro perdido, estagnado.
Há um tipo específico de silêncio que não nasce exatamente da falta de ideias, mas do excesso de vigilância sobre elas. O mesmo silêncio produzido da sensação de estar ocupando um lugar que talvez não lhe pertença. Talvez eu não consiga discorrer sobre cinema porque ele ainda carrega essa aura de campo especializado, onde a sensibilidade vem acompanhada de um saber específico, vocabulário técnico, histórico de filmes vistos; ou talvez eu só tenha comprado essa ideia mesmo. E tudo isso me fez conectar Jack com Jacques Rancière.
Em A Casa que Jack Construiu, Lars Von Trier não oferece conforto narrativo nem moral. Jack mata, explica, justifica, estetiza, e o filme insiste em nos imergir dentro dessa lógica. Jack se coloca como artista enquanto faz de suas vítimas materiais estéticos, como quem escreve um manifesto. Ele cria um mundo onde sua posição é central. Ele decide o que conta como arte; assim ele organiza o sensível para que o inaceitável pareça coerente dentro de sua lógica.
Rancière escreve em A Partilha do Sensível que política não é apenas disputa de poder, mas, antes de tudo, disputa de percepção. Quem pode falar, o que pode ser dito, o que é belo, aceitável, tudo isso parte da estética. Não à toa igrejas investiram tanto em suas arquiteturas, seus vitrais, sua arte; para que seja partilhada uma sensibilidade, uma visão de mundo em comum. Estética não é adorno; ela organiza, define lugares e vozes, produz exclusões.
Ao longo do filme, Jack constrói sua própria partilha do sensível. Ele não se vê como monstro, seus crimes são obras e sua violência é legitimada. Talvez isso seja o que mais me incomode; ele não é um desvio da racionalidade moderna, mas um produto palpável dela. Não é difícil enxergar ecos disso em discursos reais, onde a arte, a estética, justifica exclusão e, consequentemente, a morte.
No fim disso, o espectador. Ele não é passivo, ele traduz, associa, cria sentido e, claro, isso vale para mim também. Há algo quase irônico nisso; me calo com a crença de que não sou autorizado a falar de algo, sabendo que a política ocorre pela hegemonia da fala. Sempre esperei pelo “jeito certo” de escrever, mas assistindo esse filme percebi que a urgência de dizer não está em saber distinguir plano sequência de plano médio sem pesquisar no Google, mas em partilhar o sensível e visualizar um novo mundo.
Referência:
Jacques Rancière, A Partilha do Sensível


