o minimalismo é um epicurismo
sobre o capitalismo e o puro
O minimalismo como estilo de vida explode a partir de 2010, muito impulsionado pela crise de 2008 e a crescente saturação do consumo (assunto levantado também pela discussão acerca da crise climática que emergia na época). Em 2016, o documentário “Minimalism: A Documentary About the Important Things” populariza que menos é mais na sociedade do consumo. A partir disso, o termo minimalismo deixa de ser apenas objeto do design, arte e arquitetura; passa a ser reação ao hiperconsumismo e à cultura do fast fashion. Como já sabemos, o capitalismo é o sistema-mestre em metabolizar rebeldias, e rapidamente a palavra se torna hashtag.
Mesmo sendo vendido como antídoto ao consumo (mas que nunca rompe com a própria lógica da mercadoria), o minimalismo vira nicho de mercado. Móveis clean, gadgets (in)úteis, roupas cápsula, feed off-white e undershirt insider. O minimalismo se torna estética do puro, do poder, da alta classe. O capitalismo realmente adora quando você tenta fugir dele comprando produtos superfaturados. Claro, eu não estou aquém disso, escrevo este texto com minha cueca tecnológica e confortável seamless touch de 65 reais. Desde essa mudança no mercado, vejo muitos criticando (e geralmente com razão) o minimalismo que se seguiu. Entretanto, agora finalmente discorrerei sobre o título, talvez presunçoso da minha parte, em afirmar que o minimalismo deve ser, por essência, epicurista.
Trezentos anos antes de Cristo, no período helenístico, as cidades gregas já não tinham a estabilidade política da era clássica e, em um cenário de insegurança, Epicuro se pergunta: como viver bem?. Assim, ele apresenta sua filosofia com base em um termo: ataraxia, que significa imperturbabilidade. Para Epicuro, o prazer máximo não se dá pelo êxtase ou pelas sensações, mas sim na eliminação do desnecessário. Por isso ele distingue desejos. Alguns são naturais e necessários, como a alimentação e o abrigo; outros são naturais, mas não necessários, como um café trufado cultivado no cerrado mineiro com notas de caramelo. Também há desejos vãos, como fama, poder e riqueza. Estes produzem perturbação contínua, pois são fundamentalmente insaciáveis.
A ética epicurista é um convite à autossuficiência e me parece dialogar bastante com o discurso inicial sobre o minimalismo. A diferença se dá pela própria lógica do desejo ilimitado e alienante, da qual Epicuro tenta ao máximo romper. Se o capitalismo prospera fabricando necessidades artificiais, o gesto subversivo (ou feliz) não seria apenas comprar menos ou comprar diferente, mas não desejar o que ele exige que desejemos. Isso não significa desejar pouco por resignação, mas por discernimento, por reconhecer que o suficiente existe e recusar a coerção simbólica que nos diz que só seremos alguém se comprarmos algo “melhor”, mais “puro”.
Referência:
Edipro, Cartas de Epicuro


