Se você lê manhwas, provavelmente já está acostumado com a típica narrativa de fantasia de poder. Histórias em que o protagonista é medíocre, miserável, mas algo acontece e ele tem a chance de crescer, tornar-se o mais forte com seu potencial ilimitado, subjugando os inimigos.
Mas e se ninguém souber quem é o inimigo?
Bad Born Blood, à primeira vista, parece justamente esse manhwa tão manjado por aí: Luka, um menino pobre e órfão que se torna guarda imperial por seu talento extraordinário. Enquanto isso, em Solo Leveling, Sung Jinwoo descobre que é especial e usa esse talento para escapar da posição de aventureiro mais fraco que lhe foi imposta. E essa fórmula tão recorrente é, de fato, bastante sedutora, porque não importa o quão desigual seja o mundo, talvez você só precise ser excepcional.
Você é pobre? Fique mais forte!
É marginalizado? Fique mais forte!
É humilhado? Mais forte.
Percebe que isso é quase uma paródia involuntária da meritocracia contemporânea? E esse é o diferencial da obra. Luka é realmente excepcional. O problema é que a excepcionalidade não lhe diz como usá-la corretamente. Em Bad Born Blood, cada grupo possui suas próprias visões, justificativas e ações. Não existe uma etiqueta dizendo quem é o verdadeiro inimigo. O que temos são apenas narrativas. Quando percebemos isso, a fantasia de poder começa a virar um pesadelo.
Luka representa o indivíduo que precisa lidar com decisões dentro de estruturas que ele não controla e cuja totalidade sequer consegue compreender. Talvez isso tenha feito eu me interessar tanto pelo manhwa. Nós vivemos em uma era na qual temos mais acesso a informações políticas do que qualquer geração anterior e, mesmo assim, isso não parece ter produzido qualquer clareza. Quanto mais sabemos, mais difícil é separar informação de propaganda, princípio de interesse, convicção de fato.
Solo Leveling atraiu tanta gente porque descobrir que você é especial abre uma janela para a emancipação, permitindo passar a controlar o próprio destino. Em Bad Born Blood, descobrir que você é especial significa que alguém já delimitou exatamente o que você será: uma marionete excepcional.
Luka é leal ao Império porque foi ensinado a ser. Em sua primeira missão, recebe a ordem de eliminar uma base ilegal em fronteira com o Império. Ao chegar lá, porém, descobre que aquilo não era uma base militar, mas sim um acampamento. Com famílias. Com crianças.
O Império sabia disso?
Por que eliminar pessoas inocentes?
Se não sabia, como pode ser tão poderoso e saber tão pouco sobre o que está fazendo?
Esse é o tipo de questionamento que protagonistas de power fantasy geralmente não fazem; e essa constante sensação de não saber o que está acontecendo, não saber quem é o inimigo e não saber qual é o seu papel nisso tudo é o que faz de Bad Born Blood um pesadelo tão real. Porque, no fundo, o que a fantasia de poder promete é que basta ter poder e, finalmente, terei controle sobre a minha vida. E a obra apresenta a consequência incômoda dessa promessa:
você pode ter poder e continuar perdido.






