sobre a procrastinação
É como uma âncora que te impede de persistir, puxando para baixo e levando a negociar consigo, pensando se aquilo realmente vale tanto o esforço, a renúncia e o fracasso. Assim aquele tão sonhado sonho deixa de ser horizonte e se torna fardo e, do fardo, estagnação.
“Amanhã eu faço” não é apenas uma sentença recorrente em meu vocabulário; é quase um lema (talvez por isso adiei até a construção deste site). Um adiamento que se disfarça de cautela, mas que, no fundo, revela incapacidade. Às vezes dou a desculpa de que quero tudo perfeito. No entanto, essa justificativa não resiste a qualquer exame honesto da realidade; a perfeição nada mais é que um álibi. O que verdadeiramente anseio é a idealização de algo, não a realização. Eu não adio porque não quero agir, adio porque quero demais e não suporto o peso de errar.
Idealizar mantém o sonho intacto, puro, imune aos desgastes e contradições materiais. Realizar, por outro lado, presume a aceitação de que todo sonho, ao ganhar forma, se perde e se reencontra no caminho. Dessa forma, a procrastinação não nasce da falta de desejo, mas de seu excesso, da incapacidade que temos de permitir que os sonhos sejam menores do que imaginamos.
Não sei como superarei essa condição, que talvez não consista em motivação, disciplina ou famosos métodos de produtividade, mas em uma análise profunda e constante com meus ideais; aceitar que agir é sempre se perder em seus desejos e se reaver com outros olhares, e que o valor da obra não está em corresponder a uma imagem ilusória, mas em existir, mesmo que dentro de suas imperfeições, afinal, a melhor obra de Leonardo da Vinci não é a que ele imaginou, mas a que ele fez.


